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O primado ontico-ontologico dasein


 

O primado ôntico-ontológico do dasein

 

Introdução

 

Na filosofia de Heidegger os conceitos de fenomenologia e ontologia estão de tal forma ligados que o filósofo considera que a ontologia só é possível como fenomenologia, sendo que o termo significa um conceito de método. Não caracteriza a quididade real dos objectos da investigação filosófica mas o seu modo, como eles o são. O termo tem dois componentes: fenómeno e logos.

Conceito de fenómeno:

Convém fazer desde logo a distinção relativamente a Kant onde o termo fenómeno é essencialmente formal. Quando na apreensão do conceito de fenómeno fica indeterminado o ente do fenómeno têm-se apenas o conceito formal de fenómeno. Para Kant, através da intuição empírica, compreende-se o ente naquilo que se mostra e assim usa-se devidamente o conceito formal de fenómeno, ou seja o conceito vulgar de fenómeno. Pelo que para Kant o que já sempre se mostra nas manifestações no fenómeno, de maneira prévia, ou seja, as formas da intuição, são fenómenos da fenomenologia kantiana. Dessa forma espaço e tempo são também entes.

Em Heidegger o conceito de fenómeno é fenomenológico: significa mostrar-se, fenómeno diz o que se revela, o que se mostra em si mesmo. Os fenómenos constituem a totalidade do que está à luz do dia - os entes, a totalidade de tudo o que é. O ente pode mostrar-se por si mesmo de várias maneiras: aparecer, parecer e aparência, que são apenas manifestações. Por outro lado fenómeno é outra coisa: é o que se mostra em si mesmo.

Conceito de logos:

No sentido vulgar é discurso, mas significa revelar aquilo de que trata o discurso. O logos deixa e faz ver aquilo sobre o que se discorre e o faz para quem discorre- o médium. Trata-se de deixar e fazer ver demonstrando. Pressupõe uma articulação verbal em que sempre algo é visualizado. Significa portanto síntese no sentido de deixar e fazer ver algo como algo, na medida em que se dá em conjunto com outro. No sentido verdadeiro significa descobrir, retirar do velamento o ente sobre que se discorre. No sentido falso significa encobrir, colocar uma coisa na frente de outra.

Fenomenologia significa portanto a conexão entre os dois conceitos: fenómeno e logos. Deixar e fazer ver por si mesmo aquilo que se mostra tal como se mostra a partir de si mesmo. O termo fenomenologia não evoca o objecto nem caracteriza o seu conteúdo quiditativo como fazem as ciências. Refere-se exclusivamente ao modo como se demonstra e se trata o que nesta ciência deve ser tratado. É a ciência dos fenómenos, significa apreender os objectos de tal maneira que se deve tratar de tudo que está em discussão numa demonstração e procedimentos directos. Ou seja, fenomenologia descritiva, que significa afastar toda a determinação que não seja demonstrativa. O carácter da própria descrição só pode estabelecer-se a partir da própria coisa que deve ser descrita, só poderá ser determinado cientificamente segundo o modo em que os fenómenos vêm ao encontro. O que a fenomenologia deve deixar e fazer ver é aquilo que se chama fenómeno, num sentido privilegiado e por oposição ao conceito vulgar. É aquilo que em sua essência é necessariamente tema de uma demonstração explícita. Trata-se daquilo que não se mostra directamente e na maioria das vezes e se mantém velado frente ao que se mostra directamente e na maioria das vezes, mas ao mesmo tempo pertence essencialmente ao que se mostra directamente e na maioria das vezes a ponto de construir o seu sentido e fundamento. O que se mantém velado ou volta novamente a encobrir-se ou se mostra desfigurado não é um ente, é o Ser dos entes. Assim, aquilo que o conceito fenomenológico de fenómeno propõe é o Ser dos entes, o seu sentido, as suas modificações e derivados.

A concepção aqui presente é a de que atrás dos fenómenos da fenomenologia não há nada, fenómeno é aquilo que constitui o Ser. Dessa forma Heidegger propõe-se ultrapassar a dualidade kantiana de fenómeno úmeno e constituir a fenomenologia como ontologia, pois o Ser é sempre Ser de um ente, assim, a fenomenologia será a ciência do Ser dos entes.

Tendo presente a fundamentação da metodologia fenomenológica, Heidegger constrói uma ontologia que é, fundamentalmente, uma fenomenologia do dasein, e é, nesse sentido, mais propriamente uma pré ontologia. Pois na determinação da estrutura ontológica deste ente, aquilo que se revela é o próprio sentido do Ser dos entes. Pelo que a analítica do dasein é a analítica de um ente pré ontológico, é a analítica da eksistencialidade. Dessa forma constitui-se como uma hermenêutica que é a base das demais ontologias a serem criadas.

Mas, para se determinar a constituição ontológica de um ente que possui um primado ôntico é necessário que esse ente, o dasein possua uma co-pertença essencial com o Ser.

Ser

 

Para Heidegger não é possível definir o Ser, como tal é indispensável a questão do sentido do Ser. Isso acontece porque o conceito de Ser é o mais universal, e essa sua máxima universalidade torna-o, precisamente, indefinível. Não se pode definir o Ser como um ente, o seu sentido não se extrai de conceitos superiores nem se pode explica-lo a partir de conceitos inferiores. O Ser e a estrutura ontológica estão acima de qualquer ente e das determinações ônticas dos entes próprias da lógica, pelo que não se podem aplicá-las ao Ser. Não somos capazes de apreender em si mesmo e directamente o Ser do ente, quando o queremos fazer é como se agarrássemos o vazio. O Ser que tentámos questionar é quase como o nada.

No entanto, o Ser diz sempre Ser de um ente e ente é tudo de que falámos, tudo o que entendemos e tudo aquilo com que lidámos. Ser está naquilo que é e como é, na realidade, no ser simplesmente dado, no dasein, no há. Temos esta compreensão do Ser e por isso distinguimo-lo do não-ser, apesar de para Heidegger ambos constituírem uma unidade. A nossa compreensão deste significado indefinido de Ser é aquilo que possibilita a existência da linguagem e das línguas através das quais dizemos o ente e compreendemo-lo como ente, e isso implica uma pré compreensão do Ser.

Essa compreensão do Ser, sendo indefinida, não deixa de ser fundamental para o homem, pois é ela que, segundo Heidegger, manifesta a essência da existência humana. O entendimento que fazemos do Ser é assim ao mesmo tempo indefinido e de uma grande certeza, pelo que a sua compreensão é obscura, confusa e oculta. Por isso mesmo torna-se necessária a inquirição do Ser, que no fundo é o mais questionável e o mais digno de ser questionável, e assim, o mais próximo do verdadeiro. O que sempre a questão do Ser revela é que tudo aquilo que compreendemos de alguma forma tem um sentido, questionar o Ser significa apenas questionar o sentido do Ser.

Ser e linguagem

 

Heidegger afirma que o Ser fala na linguagem, a essência do Ser e a essência da linguagem estão entrelaçadas, tal como o homem, que no fundo da sua essência é o dizente. A própria palavra Ser é exemplo dessa co-pertença essencial. No carácter originário do dizer e do falar, as palavras têm o nome ou o verbo, sendo a palavra Ser um substantivo verbal. Ser revela-se no infinitivo do é.

Nessa investigação etimológica que Heidegger faz à palavra Ser encontra-se na filosofia grega uma designação que sugere uma experiência poético-pensante que revela o Ser como natureza, no sentido de significar a totalidade dos entes. Quanto à palavra ente significa desabrochar, emergir de dentro de si mesmo, aquilo que ao abrir-se se desdobra, que se manifesta em tal desabrochamento mantendo-se e permanecendo nele. Um vigorar que emergindo permanece. Para Heidegger, esse desabrochar e sustentar-se-em-e-para-fora-de-si-mesmo é o próprio Ser, em virtude do qual o ente se torna observável e permanece.

Segundo Heidegger, na língua grega exprime-se o entrelaçamento da essência do Ser com a essência da linguagem. Como se processou a derivação da palavra Ser do verbo ao substantivo. Em grego, Ser, significa chegar a e permanecer num estado de estar erguido sobre si mesmo relativamente a um processo de desvio de estar erecto e recto que é o cair, o tombar, o inclinar-se. O estar-aí-erguido-sobre-si-mesmo significa instalar-se livremente por si mesmo dentro da necessidade e dos seus limites. Limites que são a finalidade que se atinge quando se começa a ser. É esse processo que representa a consistência, aquilo que faz com que o ente seja e não seja o nada. Pelo

dominar-se a si mesmo a partir dos seus limites tem-se a si mesmo.

 

Essência do Ser

 

É neste sentido que se compreende a essência do Ser. O estar-aí-erguido-sobre-si-mesmo é aquilo que se expõe, o que se oferece naquilo que apresenta, na sua aparência. A coisa repousa no aparecimento, que é entendido como o surgimento da sua essência. O que se sustém em si mesmo e assim se apresenta, é.

Ser, no sentido originário que se encontra na filosofia grega, significa presença como essencialidade. No entanto os gregos ficaram nesse primeiro plano e não voltaram ao fundamento. Termo que em Heidegger representa um abismo, um fundamento que funda, mas é sem fundo e que é a tarefa do filósofo, a de se lançar nesse abismo que constitui a própria liberdade do homem: a de fazer mundo.

Para Heidegger a percepção do ser como fisys e a sua interpretação posterior como natureza feita na tradução para latim, pela qual a entendemos como física das coisas materiais, devem ser afastadas, ambas conduzem a determinações categoriais ônticas que nos afastam do Ser.

A fisys no sentido originário significa o emergente erguer-se, o desdobrar-se que permanece. Nesse vigorar o repouso e o movimento são a partir de uma unidade originária fechados e abertos, sendo esse vigorar a presença da essência. É pelo essenciar da essência que acontecem os entes, pois o vigorar é um desocultamento que se conquista a si mesmo como um mundo e assim possui forma. Há portanto uma dissensão criadora que permite o emergir de tudo o que essencia. Isso é o fazer mundo, um processo que resulta da dissensão, a luta guardiã vigorante de tudo. Como se trata de um processo originário, na própria dissensão, que consiste em separar o essenciado da própria dissensão, dá-se a formação de uma unidade.

O Ser delimita-se pela aparência, o devir, o não-ser e o pensar.

Aquilo que se distingue frente ao Ser advém-nos do próprio ente, com o qual nos defrontámos com o devir e com a aparência que se encontram ao mesmo nível com o Ser do ente. Enquanto o devir relativamente ao Ser significa a emergência do chegar à presença e dela sair, o aparecer significa o trazer à luz, o apresentar. O aparecer proporciona a saída para fora da dimensão do velado, ou seja, o ente como tal. O que vigorando se mostra e se situa na dimensão do desvendado e assim possui consistência pelo mostrar-se, algo pelo qual os gregos entendiam ser a verdade. É esse o significado de Alêtheia que está conectado com a essência do Ser enquanto dispersão pelo múltiplo ente, sendo estes aquilo que vem à luz, surgem e apresentam-se.

O modo de delimitação do Ser mais evidente faz-se pela contraposição com o pensar. Desde logo o pensar tanto se refere ao futuro, ao passado e ao presente. O pensar coloca algo diante de nós, apresenta-o. Este apresentar parte sempre de nós próprios, sendo um livre ligar e desligar, mas não é arbitrário, é dependente, interligado. Apresentando consideramos e examinamos o que imaginamos, dissecando-o, decompondo-o e recompondo-o de novo. Pensando seguimos o imaginado, não o aceitamos simplesmente conforme se nos apresenta, mas pomo-nos a caminho para entrar a fundo na coisa. Aí ficamos a saber como é que a coisa se encontra em si mesma. Fazemos dela uma ideia, um conceito: procuramos o geral. Em todas as faculdades e todos os modos de comportamento encontramo-nos em relação com o ente, no querer, desejar, sentir, pensar. Mas a contraposição do pensar ao Ser não se faz exclusivamente pela relação com o ente. Para Heidegger, essa contraposição resulta de uma exigência do próprio Ser que, estando originariamente reunido com a fisys e o logos, que aqui significa o pensar, mantém com eles uma harmonia originária que o oculta, ou pelo menos não o mostra de imediato.

Essa harmonia caracteriza o Ser - que, como logos, significa reunião, reunir, reunião originária - como a unidade de reunião do fluido do todo do ente lançado no seu Ser para lá e para cá. Sendo que a reunião que mantém o vigor penetrante a partir da união do que tende a opor-se na máxima agudeza da sua tensão é o logos enquanto fisys. Mas a eminência faz parte do Ser e o eminente é o mais forte. Por isso, o Ser, o logos enquanto harmonia originária reunida, não é acessível a todos, está oculto numa harmonia que não se mostra de modo imediato mas é mais poderosa do que a sempre visível. Daí Heidegger conclui que o verdadeiro não é para toda a gente, mas apenas para os mais fortes.

Esta interpretação da unidade originária, que como tal significa contraposição, entre o Ser e o logos é feita a partir da filosofia de Parménides. No fragmento 5 afirma-se: “ pensar e Ser são o mesmo.” A interpretação comum tende a considerar que na proposição pensar surge como uma actividade do sujeito. O pensar do sujeito será assim aquilo que determina o que é o Ser. Dessa forma o Ser não é outra coisa senão aquilo que é pensado pelo pensar, e sendo o pensar uma actividade subjectiva então tudo é subjectivo, pois o pensar e o Ser são a mesma coisa. Assim, não há qualquer ente em si. Para Heidegger essa é uma interpretação errónea. Onde se lê pensar deve-se ler percepcionar, deixar vir ao seu encontro aquilo que se mostra, e também interrogar, examinar. A unidade da palavra é a co-pertença num conjunto do que tende a opor-se: o originariamente uno.

Pelo que Parménides diz, na leitura de Heidegger, que Ser e pensar são unos no sentido do que tende a opor-se, i.e., são o mesmo enquanto co-pertencentes num único conjunto. Também diz Parménides que o mesmo é a percepção e aquilo em virtude do qual acontece a percepção. A percepção acontece em virtude do Ser. Este apenas essência enquanto aparece, entra no desvendamento. A concepção da essência da fisys de Parménides é ainda mais originária. A percepção, o seu vigorar, o co-vigorar da percepção como essência da fisys. É a partir desta concepção que se entende a essência do homem na filosofia de Heidegger.

 

A essência do homem

 

O Ser vigora e na medida em que vigora e aparece acontece necessariamente com o aparecimento também a percepção. Para que o homem participe no acontecimento deste aparecimento e desta percepção terá de ser si-mesmo, de pertencer ao ser. A essência e o modo do ser homem, nesse caso, somente se poderá determinar a partir da essência do Ser. Se ao Ser enquanto fisys pertence o aparecer, o homem enquanto ente pertence a esse aparecer. A peculiaridade do ser homem surge a partir da sua co-pertença ao Ser enquanto o aparecer que vigora.

Assim, o Ser do homem apenas se determina a partir do acontecer da co-pertença essencial do Ser à percepção. A percepção não é uma capacidade do homem, é um acontecimento no qual o homem apenas acontecendo entra para a História como o ente que é; aparece, chega em si mesmo ao Ser. A percepção é aquele acontecimento que possui o homem. Daqui concluímos que no sentido originário da percepção não existe uma relação sujeitoobjecto. O que percepciona e o percepcionado são um e o mesmo numa reunião originária.

No entanto a determinação da essência do homem não é resposta, é questão. O questionamento dessa questão é histórico no sentido originário de que é este questionamento que cria história pela primeira vez. Isso acontece em virtude de a questão sobre o que é o homem apenas poder ser questionada dentro do questionamento sobre o Ser. Somente onde o Ser se manifesta no questionamento é que acontece história, com isso aquele ser do homem em virtude do qual ele se atreve á dissensão com o ente como tal. Esta disputa questionante traz o homem de regresso ao tal ente que ele próprio é e deve ser. O homem só historicamente questionando se encontra a si mesmo e é um si mesmo. A si-mesmidade do homem significa que o Ser que se lhe abre e revela terá de ser por ele transformado em história, dando-se aí a consistência a si mesmo.

O homem é o que de mais estranho há, é o que se lança para fora do habitual. O homem atreve-se a avançar para e todos os domínios do ente, do vigor imponente. O homem torna-se proeminente no ser histórico pela sua acção violenta precisamente contra com o imponente. Tal acção realiza-se no lugar histórico: a Polis, no aí, onde acontece a história, que se faz, precisamente por aqueles que sendo, criam. Esta ideia de homem é um projecto poético do seu Ser a partir de suas possibilidades e limites externos.

A linguagem, a compreensão, a disposição, a paixão têm o mesmo grau de vigor imponente que o mar, a terra e a animalidade. A diferença consiste no fato de este vigorar imponentemente em torno do homem, suportando-o, impelindo-o e compelindo-o, enquanto aquele que vigora através dele, impregnando-o como aquilo que o homem, como o ente que é, tem de assumir por conta própria. O homem, apoderando-se desse vigorar impregnante parece-lhe ser ele quem dispõe, dessa forma apenas se oculta o estranho, o mistério da linguagem e das paixões. O mistério desses poderes reside na sua aparente familiaridade e habitualidade, sendo que estas impelem-no e afastam-no da sua essência. Quanto mais afastado está o homem da sua essência mais pensa ter sido ele que inventou a linguagem, a compreensão, a poesia, a edificação. Pelo que Heidegger questiona como poderia o homem ter inventado o que vigorando o impregna, o envolve, tratando-se afinal aquilo pelo qual ele próprio apenas pode ser homem?

O homem não inventou, o homem encontrou-se no vigor imponente e só aí se encontrou a si mesmo, na violência do que age violenta e imponentemente. Esse estado de descobrimento do ente é aquele poder violento que o homem tem de dominar para no seu agir ser ele mesmo no meio do ente, i.e., ser histórico. Esse uso da violência significa produção, abrir caminhos para os quais se é sempre reconduzido, pois nessa acção o homem traça o círculo do seu mundo e fecha-se ao Ser. Só a morte escapa à violência pois esta ultra limita todo e qualquer limite.

O ser homem determina-se a partir da sua co-relação com o ente como tal no seu todo. A essência do homem mostra-se aqui como a co-relação que abre precisamente o Ser ao homem. O Ser do homem, enquanto necessidade de percepção e reunião, é a urgente obrigatoriedade que força à liberdade de se aceitar o acto consciente de pôr o Ser em obra: é assim que acontece história.

Essa co-relação da essência do homem ao Ser determina o ente homem como o ser-aí, o dasein, termo de Heidegger.

 

Dasein

 

É no ente dasein que se lê o sentido do Ser. Visualizar, compreender, escolher, aceder a, são atitudes constitutivas do questionamento, modos de ser daquele ente que nós somos, os que questionamos. Elaborar a questão do Ser significa tornar transparente um ente- o que questiona em seu ser. Como modo de ser de um ente, o questionamento dessa questão determina-se pelo que nela se questiona - pelo Ser. O dasein, comparado a qualquer outro, é um ente privilegiado, não é um ente entre outros. Do ponto de vista ôntico distingue-se pelo privilégio de, em seu ser, i.e., sendo, estar em jogo o seu próprio Ser. O dasein compreende o seu ser, sendo. É próprio deste ente que o seu Ser se lhe abra e manifeste com e por meio do seu próprio ser, i.e., sendo, pelo que o dasein comporta-se sempre com o seu ser. O dasein é sempre a sua possibilidade.

O dasein é um ente que na compreensão de seu Ser, com ele se relaciona e comporta: conceito formal de eksistencia. O dasein eksiste, é o ente que eu mesmo sou. Ser sempre meu pertence à existência do dasein como condição que possibilita propriedade e impropriedade e o dasein existe sempre num destes modos, mesmo numa indiferença para com eles. A sua essência, equidade, consiste em ter de ser, pelo que Heidegger denomina-a de eksistencia.

 

Eksistencia

 

Eksistencia significa modos possíveis de ser, toda a sua modalidade de ser é primordialmente ser. Os caracteres ontológicos do dasein são denominados eksistenciais, determinam-se a partir da eksistencialidade.

A eksistencia é ela mesma a partir de sua correlação essencial com o ser em geral. Significa não apenas o cuidado do ser humano, mas o cuidado do ser do ente como tal, nele descoberto extaticamente. Eksistencia é o que se chama ao próprio Ser com o qual o dasein pode se comportar dessa ou daquela maneira e com o qual ele sempre se comporta de alguma maneira. A determinação essencial do dasein não pode ser efetuada mediante a indicação de um conteúdo quiditativo, já que a sua essência reside no fato de dever sempre assumir o próprio Ser como seu. O termo dasein designa-o como pura expressão de Ser.

O dasein compreende-se a si mesmo a partir da sua eksistencia, de uma possibilidade própria de ser ou não ser ele mesmo. Essas possibilidades são ou escolhidas pelo próprio dasein ou um meio em que ele caiu ou nasceu e cresceu. No modo de assumir-se ou perder-se, a eksistencia só se decide a partir de cada dasein em si mesmo. A questão da eksistencia só pode ser esclarecida pelo próprio eksistir, é um assunto ôntico do dasein.

 

Analítica do dasein

 

É pela analítica ontológica do dasein que se interpreta o sentido do Ser.

A estrutura ontológica da eksistencia e o questionamento dessa estrutura, pretende desdobrar e discutir o que constitui a eksistencia. A eksistencialidade é o conjunto dessas estruturas. É a constituição ontológica de um ente que eksiste. Na ideia dessa constituição de Ser já se encontra a ideia de ser em geral. Desse modo a possibilidade de se realizar uma analítica do dasein depende sempre de uma elaboração prévia da questão sobre o sentido do Ser em geral.

Deve-se procurar na analítica eksistencial do dasein a ontologia fundamental de onde todas as outras podem originar-se. Em consequência, o dasein possui um primado frente a todos os entes: um primado ôntico - dasein é um ente determinado em seu Ser pela eksistencia; um primado ontológico - com base na determinação da eksistencia, o dasein é em si mesmo ontológico; e um primado ôntico-ontológico - a eksistencia compreende-se através do dasein, pelo que é pelo dasein que se compreende o Ser de todos os entes. O dasein é, portanto, o ente que ontologicamente deve ser o primeiro interrogado.

Mas, na tarefa de interpretar o sentido do Ser, o dasein não é apenas o ente a ser interrogado primeiro. É o ente que desde sempre se relaciona e comporta com o que se questiona nessa questão. A questão do Ser não é senão a radicalização de uma tendência ontológica essencial própria do dasein: a da compreensão pré-ontológica do Ser.

As estruturas da eksistencialidade são o mundo, o tempo, o conhecimento, o distanciar.

Mundo: Para o dasein, mundo designa o conceito eksistencial ontológico da mundanidade, é um eksistencial, um modo de ser do dasein. O dasein compreende o seu próprio ser a partir do ente mundo, com quem se relaciona de modo essencial, em primeiro lugar e de forma continuada.

Estas determinações do Ser do dasein compreendem-se a priori com base na constituição ontológica ser-no-mundo. Ser-no-mundo significa ser-em, significa habitar, é o ente que eu sempre sou. O Ser-junto-ao-mundo, no sentido de empenhar-se no mundo, é um eksistencial fundado no ser-em. Não há justaposição de um ente chamado dasein a outro chamado mundo.

Tempo: é o ponto de partida do qual o dasein sempre compreende e interpreta implicitamente o Ser. Sendo o dasein, onticamente, pré-ontológico, sendo, realiza uma compreensão do Ser. É precisamente o tempo o ponto de partida através do qual isso se realiza.

O conceito vulgar de tempo distingue um ente temporal referente à natureza e à história, de um ente não temporal referente às relações numéricas e espaciais. Pelo que se estabelece um abismo entre ambos, e apenas o ente dito temporal é considerado como sendo e estando no tempo. Tempo esse que serve como critério para distinguir as regiões e modos de Ser. Mas, para Heidegger o Ser é apreendido a partir do tempo. É a partir do tempo que se compreende os modos e derivados do Ser. Pelo que, o que aí se mostra é o próprio Ser e não o ente dito temporal, o ente que é e está no tempo, pois também o dito tempo não temporal é em seu ser temporal.

Linguagem: o dasein é o ser vivo cujo modo de ser é essencialmente linguagem. Isso fornece a orientação para que se obtenham as estruturas ontológicas dos entes que nos vêm ao encontro nas falas, interpelações e discussões.

Conhecimento: é um modo de ser do dasein enquanto ser-no-mundo, o seu fundamento ôntico está nessa constituição ontológica. O conhecimento refere-se aos entes simplesmente dados que ocorrem no espaço e vêm ao encontro dentro do mundo. O dasein está e é no mundo no sentido de lidar familiarmente na ocupação com os entes que vêm ao encontro dentro do mundo, por isso a espacialidade do dasein só é possível com base nesse ser-em.

Distanciamento: distanciar diz fazer desaparecer o distante, a distância de alguma coisa, diz proximidade. O dasein como o ente que é, faz sempre com que os outros entes venham à proximidade. O distanciamento descobre a distância, sendo esta, tal como o intervalo, determinações categoriais dos entes intramundanos.

Os entes intramundanos

A ontologia tradicional interpreta o mundo a partir do ser de um ente intramundano - a natureza. Em sentido ontológico-categorial, a natureza é o ser de um ente intramundano.

Para o dasein o conjunto categorial das estruturas ontológicas da natureza é um determinado ente que vem ao encontro dentro do mundo mas não torna compreensível a mundanidade, apenas consegue mostrar-se por si mesmo dentro de um mundo. São dentro-de-um-mundo, são em si mesmos destituídos de mundo. Ocorrem no espaço e vêm ao encontro dentro do mundo. Ser-dentro-do-mundo designa a relação recíproca de dois entes extensos dentro do espaço relativamente a um lugar nesse mesmo espaço.

São existentes e não eksistentes. Existência designa o que é simplesmente dado. Um ente simplesmente dado cujas propriedades são simplesmente dadas e que possui determinada configuração. As suas determinações ontológicas denominam-se

categorias: como a distância e o intervalo, a extensão, o lugar.

 

Conclusão

 

Na filosofia de Heidegger encontrámos, não propriamente uma ontologia, mas sim uma pré-ontologia e as condições metodológicas a partir das quais é possível desenvolver sistemas ontológicos.

Uma pré-ontologia pressupõe um ente pré-ontológico, um ente que possui um primado ôntico sobre o qual se procede à determinação da sua constituição ontológica. Esse ente é o homem, o dasein, e a sua condição pré-ontológica reside na co-pertença da sua essência com o Ser dos entes em geral. Sendo o Ser dos entes o transcendente puro, e como tal absolutamente indeterminável, a questão sobre o Ser redirecciona-se para o sentido do Ser. Ora o homem é aquele ente que em virtude da sua co-pertença essencial com o Ser, sendo, é. Ou seja, é o ser aí, é aquele que acontecendo torna-se proeminente na História, e isso é o sentido do Ser.

Dessa forma é um ente pré-ontológico, pelo que uma ontologia feita com base nestes pressupostos terá de ser sempre uma pré-ontologia, uma ontologia da eksistencialidade, o que indica desde logo que é o próprio Ser que aí está em jogo.

A constituição ontológica da eksistencialidade é composta pelo conjunto de caracteres ontológicos denominados eksistenciais. Quanto às demais ontologias a serem criadas terão de partir dos modos de ser da eksistencialidade: a mundanidade, a temporalidade, o distanciamento.

Relativamente ao método é o fenomenológico. Para Heidegger, a ontologia só é possível como fenomenologia, pois o conceito de fenómeno, em termos fenomenológicos, na sua articulação com o conceito de logos, pressupõe o Ser dos entes, o seu sentido, as suas modificações e derivados. Nesse sentido, o fenómeno fenomenológico é aquilo que se mostra em si mesmo e é apreendido dessa forma. Pelo que o método consiste em demonstrar, descrevendo, a forma em que os fenómenos vêm ao encontro.

Assim, aquilo que o método fenomenológico revela é o ponto fundamental da filosofia de Heidegger: a superação da dinâmica sujeitoobjecto presente na tradição gnosiológica e epistemológica que tende a opor o sujeito do conhecimento ao objecto do conhecimento. Esta superação que Heidegger protagoniza fundamenta, desde logo, a sua concepção de que o homem, como dasein, tem como essência a possibilidade de autoconstrução originária que se reverte em História, e dessa forma, afirmar a co-pertença essencial do homem e do Ser, em virtude de a História, sendo protagonizada pelo dasein é efectivamente o sentido do Ser.

Dentro do sistema heideggeriano, o questionamento do Ser protagonizado pelo próprio Heidegger constitui um acontecimento, que é em si mesmo o próprio fundamento originário em que consiste o fazer história pela primeira vez. Pois Heidegger, ao voltar ao berço da civilização ocidental, à Grécia, re-questionando a filosofia originária, onde fala o Ser, encontra precisamente a fundamentação da fenomenologia. Nomeadamente na releitura do poema de Parménides. Aí diz-se a própria essência da fenomenologia: a unidade originária do Ser e do pensar, do pensar como percepcionar, ou seja, a unidade originária da percepção com aquilo que faz acontecer a percepção - o Ser.

Na medida em que o Ser vigora e aparece, com o aparecimento surge a percepção, e surgem os entes numa reunião originária, reunião do que tende a opor-se – o logos. A especificidade do homem consiste na sua necessidade de individuação ser a mais radical, é o ente que se lança violentamente na dissensão com o ente em geral, através do seu questionar sobre o Ser.

Mas, dessa forma o homem está apenas a ser si-mesmo, está a posicionar-se entre a sua necessidade de ser e os seus limites externos, que são a sua finalidade. Pelo que, o homem eksiste, compreendendo o Ser, o homem comporta-se e relaciona-se com ele, sendo por isso pré-ontológico. Ao contrário dos outros entes que simplesmente existem, e dessa forma são ontologicamente determináveis a partir da eksistencialidade.

 

Bibliografia

 

- Heidegger, Martin; Ser e tempo. - trad. Marcia Sá Cavalcante Schuback. - 12ª Edição. - Petrópolis : Editora Vozes, 2002

- Heidegger, Martin; Introdução à metafísica. - Lisboa : Instituto Piaget, 1997.