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A justificação estética da existência. Para fazer este trabalho escolhi o quadro S. Jerónimo de Leonardo da Vinci, porque permite pensar a solidão, a ferida, o belo, e levanta igualmente a questão filosófica de o outro mundo. Questão essa, essencial na doutrina filosófica da justificação estética da existência de Nietzsche, fundamentada na investigação kantiana. S. Jerónimo, Da Vinci O quadro S. Jerónimo, enquanto obra de arte, contém um sentido vivo que se intui, um regresso infinito indefinido a uma forma de dizer, de tocar um inexprimível sem lógicas argumentativas, é uma outra forma de pensar e de dizer. Revela um apagamento até surgir uma estância poética, uma origem do gesto de criação. Numa outra perspectiva, a composição de Leonardo despoleta na consciência – enquanto faculdade que envolve percepção, racionalidade e emoções – o conceito de santidade. S. Jerónimo procura longe da comunidade dos homens a sua mais profunda solidão. É na natureza selvagem um eremita curvado sobre si mesmo, como alguém que suporta a existência de uma realidade nua e crua, despida de toda a aparência, e como tal despojada de vontade criadora. Estende o braço na direcção do Leão, mostrando-lhe a sua pele branca, um pedaço de carne que lhe oferece, um desafio ao instinto do Leão. É a sua própria vida carnal que oferece a um mundo a que não quer pertencer. S. Jerónimo move-se apenas por amor, de forma a trespassar toda a matéria e unir-se ao amor do seu Deus. A sua existência material é aquilo que impede a sua união a um outro mundo, suporta-a como um fardo do qual se livrará quando se livrar da sua materialidade. S. Jerónimo oferece por amor ao seu Deus o seu corpo ao Leão, para que só esse amor subsista, para subsistir no amor do seu Deus. Acerca da temática: a solidão, a ferida, o belo, talvez seja ensaiando uma aproximação mais poética a estas palavras e à forma como elas funcionam em conjunto, que se poderá dizer algo que esteja mais de acordo com o sentido em que elas nos aparecem. Solidão O homem viaja pelo eterno desconhecido, pelos mares, pelos continentes, pelo universo, impelido pelos seus mitos, religiões, vontade de poder, sempre em busca do outro, que afinal é ele mesmo, e para quê? Dominar, conquistar, ou acolher, e tornar a viajar. Cada homem é uma porção de espaço-tempo sagrada, é uma luz acesa no nada, é presença numa solidão sideral, que contudo existe num abismo sofrendo e exercendo continuamente forças com os outros seres. Ferida É ao mesmo tempo intocável e sofredor da maior das violências, que o moldam até ao mais ínfimo pormenor da sua existência, desde a sua capa até ao sopro mais profundo do seu íntimo. Belo É na paisagem cósmica, por entre todas as luzes, que mergulhando sobre si mesmo, em abandono ao nada, que a sua luz mais ilumina, num espectáculo trágico a que não pode assistir. A ideia de outro mundo Sobre a ideia de outro mundo Nietzsche sugere que os filósofos inventaram um mundo onde a razão e as funções lógicas estão adequadas ao mundo verdadeiro. Por seu lado, os homens religiosos inventaram um mundo divino donde deriva um mundo desvirtuado e contranatura, o nosso. Os homens morais imaginam um mundo livre donde deriva o mundo bom, perfeito, justo, santo. Assim, considera que a historia revela que o outro mundo é caracterizado por atributos dos estigmas de pré-juízos filosóficos, religiosos e morais. O outro mundo que resulta desses factos é sinónimo do não-viver, da vontade de não viver. Verdadeiramente, foi a fraqueza de viver e não o instinto vital que criou o outro mundo. Como oposição a esse outro mundo está o mundo dos deuses olímpicos, no qual não se encontra elevação moral, santidade e imaterialidade espiritual. Nem se encontra nos olhares dos deuses olímpicos a expressão do amor e da piedade. No mundo olímpico nada há que lembre o ascetismo, a imaterialidade ou o dever. Há uma vida exuberante, triunfante, na qual, tanto o bem como o mal, se encontram igualmente divinizados. Como perspectiva intermédia poderá considerar-se a de J. Genet, quando afirma que os homens podem sentir medo ou pavor perante o inelutável movimento, sempre expansivo do mundo. Considera que nunca através da nossa acção poderemos transformá-lo noutro. No entanto, o homem sonha um universo onde seja possível uma outra aventura humana, mais efectivamente moral… Nessa perspectiva surge a análise à obra de Giacometti como uma tentativa de exprimir a crueza do mundo despido das aparências. Daí que as esculturas de Giacometti representem o limite da dignidade humana pela sua figura num mundo desses, um mundo que entra pela morte dentro, sendo provavelmente o melhor lugar para algumas dessas esculturas debaixo da terra. A concepção do belo que se encontra na obra de Genet reflecte uma estética do abandono dos homens a si mesmos. Uma entrega desinteressada à subjectividade que é contingente à solidão pela qual emerge o seu ser, e no qual desponta a ferida, pela qual o artista de coração forte revela a beleza, que é também ela contingente a esse estado, como exclamou Giacometti: “ Como é belo! “ “ Afinal como toda a gente, hã! Nem mais nem menos”. Kant Assim, procuraremos com Kant, através da sua investigação metafísica e transcendental, nomeadamente na terceira crítica, a critica da faculdade do juízo onde Kant se debruça sobre a estética, a possibilidade de conceptualizar uma doutrina filosófica assente na estética. A filosofia contém princípios do conhecimento racional das coisas mediante conceitos de natureza que tornam possível um conhecimento teórico segundo princípios a priori, e o conceito de liberdade que é um principio negativo, de simples oposição aos conceitos de natureza. Pelo que, Kant divide a filosofia em teórica – da natureza, e prática – da moral, que é a legislação da razão segundo o conceito de liberdade. A nossa faculdade de conhecimento possui os dois domínios dos conceitos de natureza e de liberdade sobre os quais legisla a priori. Dessa forma também a filosofia exerce o seu domínio, através de legislação, mas o seu território é apenas a globalidade dos objectos de toda a experiência possível, na medida em que forem tomados como simples fenómenos. A razão e o entendimento possuem duas legislações diferentes no mesmo território da experiência sem que seja permitido a uma interferir na outra. O entendimento legisla conceitos da natureza teóricos. A razão legisla no plano prático o conceito de liberdade. São dois domínios diferentes que, não na sua legislação, mas sim nos seus efeitos, se limitam unicamente ao mundo sensível, mas não se interferem porque o conceito de natureza representa os seus objectos na intuição, não como coisas em si mesmas, mas na qualidade de simples fenómenos, ao passo que o conceito de liberdade representa no seu objecto uma coisa em si mesma, mas não na intuição. Pelo que não podem fornecer um conhecimento teórico do seu objecto nem do sujeito pensante como coisa em si, o que seria o supra-sensivel, cuja ideia tem que se colocar na base de todos aqueles objectos da experiência sem que se possa elevá-la a um conhecimento. É assim que Kant pensa a existência de um campo ilimitado e inacessível à nossa faculdade de conhecimento: o supra-sensivel, ao qual pensa que temos que ocupar com ideias em favor do uso da razão teórico e prático, sem que possamos fornecer nenhuma outra realidade que não seja prática às leis do conceito de liberdade. Significa por isso que existe um abismo entre o sensível e o supra-sensivel, entre os domínios dos conceitos de natureza e liberdade, sendo que o de liberdade deve actuar no sensível aplicando as suas leis à natureza, tendo esta que ser pensada de forma a que os fins que nela actuam segundo leis da liberdade concordem com a sua conformidade a leis. Pelo que Kant pressupõe a existência de um fundamento da unidade do supra-sensivel que esteja na base da natureza, com aquilo que o conceito de liberdade contém de modo prático e ainda que o conceito desse fundamento não consiga nem de um ponto de vista técnico ou pratico um conhecimento do supra sensível ou um domínio, mas apenas uma passagem da maneira de pensar segundo os princípios de um para a maneira de pensar segundo os princípios de outro. Pelo que poderia supor-se a divisão da filosofia em teórica de acordo com os conceitos de natureza que contém a priori o fundamento para todo o conhecimento teórico assentarem na legislação do entendimento e prática pelo conceito de liberdade, que contém a priori o fundamento para todas as prescrições práticas sensivelmente incondicionadas assentarem na legislação da razão, só que, a faculdade do conhecimento, que é uma das faculdades da alma juntamente com o sentimento de prazer e desprazer e a faculdade de apetição, contém ainda a faculdade do juízo que se situa entre o entendimento e a razão. Ora a faculdade do conhecimento quando está sob a legislação do entendimento é teórica e relaciona-se com a natureza fornecendo-lhe os conceitos puros a priori do entendimento. Nesta fase a faculdade de apetição não está sob a legislação da faculdade do conhecimento, por ser uma faculdade superior segundo o conceito de liberdade, sendo assim a razão que lhe fornece esse conceito. Pelo que verifica-se a existência de uma ligação entre a faculdade de apetição e a faculdade de conhecimento através do sentimento de prazer e desprazer, e como na faculdade de conhecimento, a faculdade do juízo se encontra entre o domínio dos conceitos de natureza do entendimento e o domínio do conceito de liberdade da razão, Kant conclui que a faculdade do juízo faz uma passagem entre os dois, ou seja, une a filosofia num todo. Faculdade do juízo A faculdade do juízo é a faculdade de pensar o particular como contido no universal. É determinante quando subsume a lei no particular e reflexiva quando tem de procurar o universal para o particular. E é neste caso que necessita de um principio apenas para si mesma pois assim como as leis universais têm o seu fundamento no nosso entendimento, que as prescreve à natureza (ainda que somente segundo o conceito universal dela como natureza) assim têm as leis empíricas particulares, a respeito daquilo que nelas é deixado indeterminado por aquelas leis, que ser consideradas como se um entendimento, que não o nosso, as tivesse dado em favor da nossa faculdade de conhecimento, para tornar possível um sistema da experiência segundo leis da natureza particulares. Esse princípio da faculdade do juízo reflexiva é um princípio transcendental, pois representa a priori a condição universal, sob a qual apenas as coisas podem ser objectos do nosso conhecimento em geral. E segundo Kant, aos produtos da natureza não se pode acrescentar algo como uma relação da natureza a fins neles visível, mas segundo leis empíricas é possível conectá-los enquanto fenómenos na natureza, o que vai possibilitar representar a natureza como unidade do múltiplo das suas leis empíricas. Ora, o conceito de um objecto contém a sua efectividade, o seu fim, e algo que esteja de acordo com essa constituição de coisas segundo fins chama-se conformidade a fins da forma dessa coisa. A faculdade do juízo reflexiva age como se um entendimento lhe desse um conceito que represente a forma das coisas da natureza sob leis empíricas em geral como conformidade a fins da natureza na sua multiplicidade, mas apenas para reflectir. O conceito transcendental da conformidade a fins da natureza não é de liberdade nem de natureza, é um princípio subjectivo que representa a única forma de procedimento na reflexão sobre os objectos da natureza quando se intenta a uma experiência consistente. Assim, Kant sublinha que no juízo reflexivo dá-se uma libertação de uma necessidade, que existindo, não descortinamos, o que nos causa um regozijo como se às nossas intenções se manifestassem acasos favoráveis aquando do encontro da unidade sistemática sob simples leis empíricas. Para Kant o que efectivamente acontece é que o entendimento descobre que é contingente à nossa faculdade de conhecimento a ordem da natureza segundo as suas leis particulares tão heterogéneas e múltiplas que ultrapassam a nossa faculdade de apreensão. Pelo que o entendimento é conduzido com a intenção de introduzir na natureza a unidade dos princípios, sendo a faculdade do juízo que o faz. E, como a realização de uma intenção se relaciona com o sentimento de prazer, sendo condição daquela primeira uma representação a priori – como aqui um principio para a faculdade de juízo reflexiva em geral – também o sentimento de prazer é determinante, mediante um principio a priori. Assim chega-se ao ponto fundamental da investigação kantiana para a conceptualização de uma doutrina baseada na estética. Aquilo que na representação de um objecto é meramente subjectivo, o que constitui a sua relação com o sujeito e não com o objecto é a natureza estética dessa representação, sendo aquilo que nela serve ou é utilizado para a determinação, o conhecimento do objecto, é a sua validade lógica. No conhecimento de um objecto dos sentidos aparecem ambas as relações. Nietzsche entende que a humanidade tem a sua mais elevada expressão em valores puramente estéticos. Defende que o prazer estético é a mais elevada forma de existência individual, daí que considere que só o juízo estético faz lei. Quanto ao conhecimento considera que é um conceito falso. Conhecer é entrar em relação com alguma coisa, é sentir-se determinado por essa coisa e em troca determiná-la, mas na verdade não existe um conhecimento efectivo pois tudo é fluido, irretenivel e fugidio em virtude do carácter do mundo ser em devir. Juízos estéticos Interessa sobretudo perceber o que acontece no julgamento estético. De acordo com Kant, ter a consciência de uma representação acompanhada por uma sensação de comprazimento é algo unicamente subjectivo e refere-se ao sentimento individual de vida, o qual funda a faculdade de julgar que em nada contribui para o conhecimento, apenas mantém a representação dada no sujeito em relação com a inteira faculdade de representações, da qual o ânimo se torna consciente no sentimento do seu estado. Ora é fundamentalmente a questão do ânimo que justifica a doutrina de Nietzsche. No julgamento reflexivo a faculdade da imaginação é livre, mas actua conforme a leis dadas pelo entendimento, ao mesmo tempo a imaginação entra num jogo com as outras faculdades intelectuais: o entendimento e a razão. Esse jogo produz uma vivificação das faculdades que operam um contínuo e recíproco estímulo, assim como uma permuta incessante de representações da sensibilidade e do intelecto. E aí Kant afirma que esse jogo é determinante para o conceito de vida, o ânimo é por si só inteiramente vida, o próprio principio de vida, o mesmo acontecendo com o conceito de saúde também provocado por esse sentimento de um jogo a ocorrer entre as forças do ânimo. Efectivamente é o próprio Kant quem convida a uma investigação acerca da possibilidade de se pensar o carácter estético da realidade quando a propósito do sublime afirma que a beleza auto-subsistente da natureza descobre-nos uma técnica da natureza, que a torna representável como um sistema segundo leis, cujo principio não encontramos na nossa inteira faculdade do entendimento, ou seja segundo uma conformidade a fins respectivamente ao uso da faculdade do juízo com vista aos fenómenos, de modo que estes tem de ser ajuizados como pertencentes não simplesmente à natureza no seu mecanismo sem fim, mas também à analogia com a arte. Portanto, ela, na verdade alarga não o nosso conhecimento dos objectos da natureza, mas sim o nosso conceito da natureza, enquanto simples mecanismo, ao conceito da mesma como arte. Como constatámos o entendimento é conduzido com a intenção de introduzir na natureza a unidade dos princípios da ordem na natureza segundo as suas leis tão particulares e heterogéneas que ultrapassam a nossa faculdade de apreensão. Pelo que é de pressupor que também esteja na base da natureza um fundamento da unidade do supra-sensivel com aquilo que é a actuação da faculdade do juízo reflexiva à imagem do que acontece com aquilo que o conceito de liberdade contém de modo prático, pelo que da mesma forma não se consegue nem de um ponto de vista técnico ou prático um conhecimento do supra-sensivel ou um domínio, mas apenas uma passagem da maneira de pensar segundo os princípios de um – do supra-sensivel para a maneira de pensar segundo os princípios de outro – no caso, da faculdade de juízo reflexiva. Pelo que parece-nos que onde termina a investigação metafísica e transcendental kantiana, que apenas pretende investigar se e como é possível uma doutrina em função da condição das nossas faculdades e através delas, começa a doutrina de Nietzsche. Nietzsche Assenta num ponto fundamental, na fusão da ética com a estética elevando o homem a artista metafísico, pelo que lhe é possível falar em divinizar o mundo, o mundo em que se vive. Só assim o homem pode ter a mais elevada forma de existência, aproximando-se do artista primordial do mundo. “… Devemos, antes de tudo, para nossa confusão e para nossa glória, estar convencidos de que a comedia da arte não é para nos, quer dizer, não tem por fim a nossa educação nem o nosso aperfeiçoamento; não o é de maneira nenhuma, pela mesma razão de que não somos nós os verdadeiros criadores deste mundo da arte. Temos, certamente, o direito de pensar que, para o verdadeiro criador da arte, somos também imagens e projecções artísticas, e que a nossa glória mais alta é a nossa significação de obras de arte – porque só como fenómeno estético nos é possível justificar que o mundo exista eternamente; - mas na vida quotidiana temos tanta consciência desta função que nos foi atribuída, como os guerreiros que estão pintados num quadro podem ter consciência da batalha que representam. O nosso conhecimento exterior da arte é, no fundo ilusório, absolutamente ilusório, porque ao possuirmos tal conhecimento não nos sentimos unidos e identificados com esse princípio essencial que, criador único e espectador único desta comédia da arte, reserva para si o prazer eterno. Só no acto da produção artística, e na medida em que se identifica com o artista primordial do mundo, é que o génio poderá saber algo da essência eterna da arte. Nietzsche tentou compreender o universo no sentido oposto do encadeamento de causas e efeitos, como se nada agisse e fosse real para lá do pensar, do sentir, do querer. Como se a nossa existência, a existência empírica fosse de facto inexistência, ou na realidade puramente representações do uno primordial, ou obras de arte do artista primordial. Daí que só esteticamente nos é possível justificar a existência. “ Do mesmo modo que, das duas metades da vida – a vigília e o sono -, a primeira nos parece incomparavelmente mais perfeita, mais importante, mais séria, mais digna de ser vivida, assim também desejaria eu sustentar (por mais paradoxal que pareça), que o sonho das nossas noites tem importância análoga para a essência misteriosa da nossa natureza, para a intimidade de que somos a aparência exterior. Com efeito, quanto mais observo que na natureza os instintos estéticos são omnipotentes e que é irresistível a força que os obriga a objectivarem-se na aparência, tanto mais me sinto inclinado a admitir a hipótese metafísica de que o uno primordial e verdadeiro existente, eternamente sofrendo as suas íntimas contradições, necessita, para sua perpétua libertação, tanto da visão encantadora como da aparência jubilosa; e admito também que, completamente integrados nesta aparência de que somos dependentes, devemos concebê-la como absoluta inexistência, como perpetuo devir no tempo, no espaço e na causalidade, ou por outras palavras como realidade empírica. Se da nossa própria «realidade» nos abstrairmos por um momento, se concebermos a nossa existência empírica, e a do mundo em geral, como representação a todos os instantes suscitada pelo uno primordial, e compararmos este existir com o sonhar, então o sonho há-de ser para nós aparência da aparência, e, nesta qualidade, a satisfação ainda mais perfeita do desejo primordial de aparência.» É pois como artistas, encarando a realidade como metafísica de artista, fazendo a fusão do espírito apolínio com o espírito dionisíaco que se alcança a forma mais elevada de existência e se está mais próximo do uno primordial, do artista primordial. Apolo é a divindade das artes plásticas, do mundo dos sonhos, da aparência, da beleza, das formas, e do princípio de individuação. Diónisos é a divindade da arte sem formas, da arte musical. É o deus do mundo da embriaguez dionisíaca, da força despótica da renovação primaveril. São dois instintos impulsivos da natureza que andam lado a lado quase sempre em guerra aberta. Até que às máximas apolínias: “ Conhece-te a ti mesmo!” e “ Não te excedas!” se junta o despertar da exaltação dionisíaca que atrai o indivíduo subjectivo para o aniquilar no total esquecimento de si mesmo, e lhe provocar um sentimento de identificação mística. O instinto dionisíaco enquanto força artística primitiva e eterna, chama à vida o mundo inteiro da aparência, o mundo animado da individuação apolínia para com uma nova ilusão transfiguradora o prender à vida. O artista plástico, como o artista épico abisma-se na contemplação pura das imagens, enquanto o artista dionisíaco está compenetrado do sofrimento primordial, é o eco do sofrimento primordial. Da junção destes dois instintos artísticos da natureza nasce a obra-prima da arte: a tragédia ática. À qual a existência mais se assemelha se a considerarmos como representação contínua proveniente do uno primordial. Pelo que, é o artista apolínio-dionisíaco aquele que está mais próximo do artista primordial. Assim, olhando novamente o quadro de Leonardo, vê-se em S. Jerónimo um homem que entregou a sua vontade ao não-viver. A perspectiva é a de que num certo plano da existência o eu não existe. Tudo é vontade e representações. Por um lado, é um patamar propício a uma atitude niilista, que vem a fundar a religiosidade quando se faz aderir a vontade a Deus ou se a cultiva de forma a alcançar o nirvana, por exemplo. Por outro lado, é aquando da afirmação da vontade que o homem se constitui como artista metafísico. Como redentor do acaso. E, se com S. Jerónimo tudo o que se lhe apresenta é sofrimento, com o artista metafísico é ânimo. Bibliografia Genet, Jean, O Estúdio de Alberto Giacometti; Assírio e Alvim. Kant, Immanuel, Crítica da Faculdade do Juízo; trad. António Marques e Valério Rohden, Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Kenny, Anthony, História Concisa da Filosofia Ocidental; rev. Científica Desidério Murcho. - Lisboa: Temas e Debates, 1999. Nietzsche, Friedrich, A Origem da Tragédia; trad. Álvaro Ribeiro, Guimarães Editores. Nietzsche, Friedrich, A Vontade de Poder; vol.1 Rés-Editora.